Políticos de alas ideológicas distintas se uniram nas redes sociais na mobilização contra o assassinato brutal do cão comunitário Orelha, vítima de um espancamento na Praia Brava, em Florianópolis, no início deste mês. O caso ganhou repercussão nacional e provocou uma onda de indignação para além de Santa Catarina.
- ‘Vizinhança fenomenal’: Presidente da Argentina, Milei compartilha discurso de Flávio Bolsonaro durante evento em Israel
- Laudo: Cão Orelha em SC teve inchaço grave na cabeça, olho saltado e sangramento na boca e no nariz após agressão
A Polícia Civil catarinense identificou ao menos quatro adolescentes como suspeitos das agressões. Nesta terça-feira, três familiares dos jovens, que seriam de famílias influentes na cidade, foram indiciados por coação no curso do processo. Segundo a investigação, os parentes, citados apenas como um advogado e dois empresários, tentaram intimidar um vigilante que presenciou o ataque.
O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), afirmou que tomou conhecimento do caso ainda no dia 16, e as provas do caso “embrulharam o estômago”.
— Confesso que custei a acreditar. Adolescentes de famílias estruturadas, agredindo um cão por pura maldade. Um animal dócil, que não oferecia risco algum, cuidado e amado por toda comunidade. Orelha não era apenas um cachorro, ele fazia parte do lugar — disse Jorginho. — O que alguém capaz de matar um animal indefeso pode se tornar no futuro? — questionou.
O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também reagiu ao caso na manhã desta quarta-feira. O parlamentar prestou solidariedade aos moradores que cuidavam de Orelha, e disse “não conseguir imaginar a dor” de perder um animal de forma tão violenta.
“Casos assim mostram que a violência começa cedo e não pode ser tratada como algo menor só por causa da idade de quem comete o crime. Quando há barbaridade, tem que haver responsabilização. Proteger os animais é defender valores básicos de humanidade”, escreveu.
O prefeito de Florianópolis, Topázio Neto (PSD), afirmou que toda a cidade está “impactada” com o crime. Ele também destacou que, além de desejar punição aos suspeitos, há uma lei na capital catarinense que garante o cuidado aos cães comunitários.
— Eles não são cães sem donos. São cães com muitos donos. Qualquer animal em Florianópolis é protegido pela lei. A lei do cão comunitário garante a eles castração e atendimento no Dibea (Diretoria de Bem-Estar Animal). Ninguém pode enxotá-los ou tirar suas casinhas do local — explicou o prefeito, que anunciou que o Dibea irá se tornar um hospital veterinário. — Quando você mexe com um cão comunitário, mexe com a cidade toda.
O deputado federal Kim Kataguiri (MBL-SP) afirmou que protocolou um projeto de lei para aumentar a pena pra criminosos que torturam e matam animais. O parlamentar também criticou a atuação dos familiares no caso, que atuaram para atrapalhar as investigações, defendendo um “boicote” a possíveis empreendimentos dos quais são donos.
— Meu primeiro pensamento é: como eles são capazes de fazer isso? E o segundo é: que educação que esses pais deram para esses “moleques”? — disse Kataguiri.
A deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) destacou que “qualquer sociedade minimamente civilizada compreende que a crueldade gratuita, especialmente contra seres indefesos, é inaceitável”. De acordo com ela, por isso, o assassinato não pode ser tratado com um “caso menor”.
“Estudos na área comportamental indicam que maus-tratos contra animais podem revelar desvios e transtornos que merecem atenção, razão pela qual o episódio exige investigação séria, responsabilização nos termos da lei e reflexão sobre que tipo de sociedade estamos formando”, avaliou.
‘Tristeza e indignação’ diz Janja
A primeira-dama Janja da Silva afirmou que o caso tem gerado “tristeza e indignação”. Ela se solidarizou com a comunidade que “sempre cuidou do Orelha com tanto amor”, e ressaltou que “a perversidade não nasce do nada”.
“Sua morte não é apenas um episódio isolado de crueldade. É um alerta doloroso sobre uma geração exposta, desde cedo, a discursos e conteúdos digitais que banalizam a violência e transformam a dor em entretenimento”, criticou a primeira-dama.
A deputada federal Jandira Feghali (Psol-RJ) disse que o ocorrido é um “retrato doloroso da crueldade que ainda precisamos enfrentar como sociedade” e se trata de uma violência que revela “o quanto a desumanização avança quando a impunidade se instala”. A parlamentar cobrou a implementação de políticas públicas e responsabilização dos suspeitos.
“Orelha era um cão comunitário, cuidado por todos, símbolo de afeto, confiança e convivência, e foi justamente essa confiança que o levou a cair numa emboscada covarde”, disse.
O senador Humberto Costa (PT-PE) afirmou que o caso “chocou o país”, ressaltando que irá pautar a urgência de um projeto de lei apresentado por ele para aumentar as penas contra maus-tratos aos animais, especialmente cães e gatos.
“Nós sabemos que os animais, e isso é reconhecido por lei, são seres que sentem dor, sencientes, capazes de terem experiências físicas e emocionais como o sofrimento. Vamos trabalhar pela aprovação desse projeto para aumentar a rede de proteção aos nossos animais, que não podem ser vitimados pela perversidade de alguns”, afirmou.
O presidente da Embratur e ex-deputado federal Marcelo Freixo (PT) publicou uma foto segurando um cachorro para questionar “como pode alguém fazer mal pra um bichinho” assim.
“Não consigo entender. Esse caso da morte do cão Orelha é de revirar o estômago. Vale o lembrete: violência contra os animais É CRIME!”, completou Freixo.
A perícia constatou que Orelha sofreu múltiplas agressões e uma pancada na cabeça, mas o objeto usado no ataque não foi encontrado pelos agentes. Entre os quatro jovens apontados como ligados à violência, dois viajaram para os Estados Unidos após o episódio. Eles não foram identificados em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Segundo a polícia, o mesmo grupo é suspeito de ter tentado afogar outro cachorro que vive na região, que conseguiu escapar. Uma operação na segunda-feira apreendeu celulares e outros aparelhos eletrônicos na casa dos adolescentes e de familiares. Os investigadores também colheram dezenas de depoimentos e obtiveram mais de mil horas de imagens de câmeras de segurança da região, que estão sendo analisadas.
A defesa de dois dos adolescentes suspeitos divulgou uma nota na qual questiona a “exposição irresponsável da identidade e da imagem dos jovens nas redes sociais”, em desrespeito ao ECA. Os advogados Alexandre Kale e Rodrigo Duarte também destacaram que, “como informado durante coletiva da Polícia Civil, não há vídeo ou imagens que comprovem o momento do suposto ato de maus-tratos”, o que contraria “rumores de que ele havia sido apagado em um contexto de coação para eliminação de provas”.
“Em nome das famílias que enfrentam um verdadeiro linchamento virtual pela escalada do episódio, pedimos a cautela e a responsabilidade no compartilhamento de imagens e textos que não são condizentes com a realidade dos fatos”, diz o texto, que reitera “a colaboração com as autoridades” para que o “triste episódio seja rapidamente esclarecido”.

