Após a Polícia Militar do Rio abrir um procedimento investigatório contra o capitão Alessander Ribeiro Estrella Rosa, conhecido como Tenente Alessander, lotado no 39º BPM (Belford Roxo), por ligações com o Comando Vermelho (CV), a ficha corrida do oficial volta a chamar atenção. Ele é alvo de uma ação penal que apura o envolvimento dele na venda de armas para a facção e organização criminosa desde o ano passado. Em maio, ele se entregou à polícia junto ao cabo Diogo Briggs Climaco das Chagas, o Briggs, após ambos serem denunciados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro(MPRJ) de fazer parte do “Novo Escritório do Crime”, um grupo criminoso semelhante ao original homônimo.
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Uma suposta gravação do capitão da PM com o chefe de favelas de Belford Roxo do CV, José Severino da Silva Júnior, conhecido como Soró ou Jetta, revela um provável acordo político entre ambos. O traficante afirma que retirou as barricadas das comunidades sob seu domínio, conhecidas como Castelar e Rola Bosta, e reclama que as operação policiais continuam por lá.
De acordo com o diálogo, o capitão Alessander, no entanto, diz ser ele quem “organiza tudo”:
“Quem organiza isso tudo sou eu. Quem fica na prefeitura [de Belford Roxo], no Batalhão, sou eu”.
Em nota, a Secretaria de Estado de Polícia Militar informou que, ao tomar conhecimento da denúncia, o policial envolvido foi imediatamente afastado das funções e teve a conduta apurada pela Corregedoria Geral da corporação. A pasta afirmou ainda que não compactua com desvios de conduta ou práticas ilícitas e que adota medidas rigorosas sempre que há comprovação dos fatos, com base nos princípios da legalidade, ética e disciplina.
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As suspeitas já haviam sido levadas ao Ministério Público Federal (MPF) e ao MPRJ por meio de uma denúncia anônima.
A medida surge depois de uma live do ex-governador Anthony Garotinho, na qual o político divulgou um áudio e uma chamada de vídeo que, segundo ele, mostram Alessander conversando com traficantes ligados ao Comando Vermelho. Em uma das gravações, o policial aparece em diálogo com Soró. Em outro momento, surge o traficante Doca, apontado como uma das lideranças do Comando Vermelho no Complexo da Penha, que, segundo Garotinho, estaria “exigindo um compromisso feito com o Canella (prefeito de Belford Roxo)”.
Policiais que atuam no setor de interceptação telefônica acreditam que a ligação foi gravada por Soró, que, possivelmente, tinha alguma desconfiança do policial e guardou como prova. No entanto, o áudio acabou vazando. O traficante pode ter deixado a gravação com terceiros para sua segurança também.
Procurada, a defesa de Alessander preferiu não se manifestar.
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Em uma publicação nas redes sociais, o prefeito Márcio Canella afirmou que são falsas as acusações feitas por Anthony Garotinho. Segundo ele, é pública a guerra que sempre travou contra o traficante Doca desde o início de seus mandatos, o que, afirmou, é de conhecimento das forças de segurança do estado. Canella disse ainda que as declarações têm motivação eleitoral, reiterou que responde por seus atos e defendeu a punição de qualquer pessoa ligada ao tráfico. O político se colocou à disposição para prestar esclarecimentos.
Mais tarde, em vídeo divulgado nas redes, endureceu o tom:
— Não costumo dar palanque para maluco. Ainda mais para um imbecil do partido do ex-prefeito Waguinho, que ainda não aceitou a derrota nas urnas e tenta me atingir a todo custo. Desde o início do mandato, luto para manter a paz na minha cidade. Desde o início do mandato, luto para manter a paz na minha cidade. E já falei várias vezes: o problema da segurança pública no estado é o traficante Doca, um narcoterrorista que precisa ser excluído da sociedade o mais rápido possível — enfatizou.
‘Novo escritório do crime’
Segundo a denúncia do MPRJ, Alessander e Briggs forneciam armamento para a organização criminosa comandada pelo ex-policial militar Thiago Soares Andrade Silva, conhecido como Soares, Batata ou Ganso. O grupo atuava de forma semelhante ao “Escritório do Crime” original, chefiado pelo ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, morto em fevereiro de 2020, e por isso recebeu a denominação de “Novo Escritório do Crime”.
Ambos foram alvos de uma operação do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ, com apoio da Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI), que visava cumprir mandados contra nove acusados. A operação ocorreu na última quinta-feira (15/05). No entanto, os dois policiais não haviam sido localizados pelo MPRJ e pela Corregedoria da PM, sendo considerados foragidos até se apresentarem.
As investigações do Gaeco apontaram que Thiago Soares teria ordenado a execução de dois integrantes de um grupo rival. Curiosamente, ambas as quadrilhas, segundo os promotores, atuavam para o mesmo chefe, o contraventor Rogério Andrade, preso em uma penitenciária federal no Mato Grosso do Sul. O ex-PM é apontado como braço direito de Flávio da Silva Santos, conhecido como Flávio Pepe ou Flávio da Mocidade, presidente da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Já o outro grupo, conforme o MPRJ, atuava na contravenção sob o comando do sargento da PM Márcio Araújo, chefe da segurança de Rogério.
Foram denunciados pelo Gaeco por participação direta nas mortes de Fábio Romualdo e Neri Peres Júnior: o sargento da PM Bruno Marques da Silva, conhecido como Bruno Estilo; Rodrigo de Oliveira Andrade de Souza, o Rodriguinho; e Anderson de Oliveira Reis Viana, conhecido como Papa ou 2P.
Além de Alessander, Briggs, Bruno, Thiago, Rodrigo, Viana, outros três acusados fariam parte do grupo criminoso. Foram denunciados também pelo Gaeco: o miliciano André Costa Bastos, o Boto; Diony Lancaster Fernandes do Nascimento; e Vitor Francisco da Silva, o Vitinho Fubá.
Todos respondem por organização criminosa armada, sequestro e comércio ilegal de armas e munições.

