'Tinha vergonha do meu banheiro': reformas em casas de favelas do Rio devolvem dignidade a moradores

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Durante 35 anos, Gezy Deyse, de 62, que é cadeirante, precisou se escorar nas paredes de casa para conseguir tomar banho. O banheiro sem acessibilidade era motivo de constrangimento constante para a moradora da Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio, que sentia vergonha quando uma amiga a visitava e pedia para usar o cômodo. Gezy recorda ainda outro desconforto na própria casa: para sair e ir ao médico, por exemplo, precisava ir quase se arrastando até o portão.
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— Eu ia chorando com medo de cair, mas agora está maravilhoso. Glória a Deus, está bem melhor! — festeja ela, que hoje tem uma rampa de acesso para entrar em casa e um banheiro adaptado.
Antes e depois do banheiro da casa de Gezy Deyse
Secretaria Especial de Ação Comunitária da Prefeitura do Rio
Na favela da Palmeirinha, na Zona Norte, a história se repete com outras palavras, mas com o mesmo sentimento. Maria da Penha, de 67 anos, uma das primeiras moradoras da comunidade, passou décadas evitando receber visitas em casa. O motivo era sempre o mesmo, o banheiro da residência.
— Tinha vergonha. Minhas colegas pediam para ir ao banheiro e eu morria de vergonha — relembra dona Maria.
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Antes e depois do banheiro da casa de Maria da Penha
Secretaria Especial de Ação Comunitária da Prefeitura do Rio
Quando finalmente pôde mostrar o cômodo reformado às amigas, a reação foi de alívio, ela conta:
— Elas já vieram aqui, já mostrei, tá lindo! Tá muito bonito!
Os relatos de Gezy e Maria da Penha expõem uma realidade incômoda, porém, infelizmente, comum em comunidades do Rio: em pleno século 21, milhares de famílias cariocas ainda vivem sem acesso a condições básicas de saneamento e moradia digna. Para elas, ter um banheiro funcionando não é luxo, é questão de saúde, privacidade e autoestima.
Quando a família adoece junto com a casa
As consequências vão além do constrangimento social. Dona Maria lembra que a falta de água encanada e as infiltrações no quarto afetavam diretamente a saúde da família. Antes da reforma, era preciso carregar baldes de água para dar descarga no vaso sanitário. A hidráulica precária tornava tarefas simples do dia a dia um desafio diário. Com a reforma, tudo ficou melhor.
— Melhorou a saúde da minha família, melhorou bastante. Agora eu posso receber meus netos numa casa mais confortável — comemora Maria da Penha, que agora tem água encanada, chuveiro quente e pode receber a família em casa sem receio.
Maria da Penha, moradora da comunidade Palmeirinha, na Zona Norte
Arquivo Pessoal
Para Gezy, as infiltrações eram uma ameaça constante. Quando chovia forte, o quarto pingava sem parar. Ela improvisava com baldes e panelas espalhados pela casa, mas alguns pertences acabaram perdidos:
— Tinha medo de cair parte da parede e machucar alguém ou de contrair alergias, fungos. As paredes pretas de mofo eram um retrato da precariedade, e isso afetava a minha autoestima.
Gezy Deyse, moradora da Vila Kennedy, na Zona Oeste
Arquivo Pessoal
Na Providência, região central da capital fluminense, Luciene Ribeiro enfrentava situação parecida. Morando com o marido e a filha, ela conta que a família planejava reformar a casa, mas o desemprego tornava o sonho distante.
— Era muito feia a minha casa — diz Luciene, que, hoje, após a reforma, comemora: — Agora tá uma bênção! O quarto da minha filha tá maravilhoso.
Antes e depois do banheiro da residência de Luciene Ribeiro
Secretaria Especial de Ação Comunitária da Prefeitura do Rio
Dignidade que começa no banheiro
As três famílias foram beneficiadas pelo Casa Carioca, programa da Prefeitura do Rio executado pela Secretaria de Ação Comunitária. Lançado em julho de 2023 no Morro da Providência, ele integra o projeto chamado Favela com Dignidade e tem como objetivo garantir ambientes seguros e saudáveis para famílias em situação de vulnerabilidade social.
Segundo dados da Prefeitura do Rio, desde a implementação, mais de 7 mil moradias foram revitalizadas em diversas comunidades da cidade. O Casa Carioca está atualmente em cinco complexos — Maré, Alemão, Jacarezinho, Vila Kennedy e Penha —, além do Morro da Providência.
Para ser elegível ao programa, a família precisa estar em domicílio inadequado, ter renda mensal de até três salários mínimos, estar cadastrada no CadÚnico e residir no município há pelo menos três anos.
O programa estabelece ainda critérios de priorização: famílias chefiadas por mulheres, com membros idosos, pessoas com deficiência, com doenças graves ou com maior número de dependentes (igual ou maior que três habitantes no mesmo cômodo) são atendidas primeiro.
Não existe uma forma de cadastro para as famílias se inscreverem. A seleção é feita por meio de uma busca ativa em áreas previamente mapeadas pelo Instituto Pereira Passos (IPP), em parceria com o programa ONU-Habitat. Equipes técnicas vão até os territórios mais vulneráveis e, com base em dados socioeconômicos e visitas domiciliares, identificam quem precisa de atendimento prioritário.
Após a seleção, a família recebe um projeto com todas as informações sobre a intervenção que será feita. As reformas incluem pintura interna e externa, troca de pisos, reparos hidráulicos, instalação de pontos de luz, troca de portas e janelas, reparo de telhados e, principalmente, reforma completa de banheiros.
Para Maria da Penha, que passou anos sem poder dar descarga em seu banheiro sem carregar balde d’água, a mudança foi profunda:
— Agora existe dignidade, cidadania e saúde. Tanto os pedreiros quanto as outras pessoas que vieram (na minha casa) foram maravilhosas, me trataram muito bem.
Gezy resume o que a intervenção representa para ela e para tantas outras famílias que vivem nas comunidades cariocas.
— Ter um banheiro digno dentro de casa significa saúde, significa privacidade e dignidade — afirma.
Os relatos de Maria da Penha, Gezy e Luciene comprovam o poder transformador de ações simples, como reformar um banheiro, garantir água encanada em casa ou consertar infiltrações. São mudanças que devolvem alegria, saúde e autoestima para quem passou anos vivendo sem o básico. De acordo com a prefeitura, a expectativa é de que o programa seja expandido para outras comunidades cariocas e que mais famílias tenham acesso à moradia digna.
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Com informações da fonte
https://extra.globo.com/extra-favelas/noticia/2026/01/tinha-vergonha-do-meu-banheiro-reformas-em-casas-de-favelas-do-rio-devolvem-dignidade-a-moradores.ghtml

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