A Polícia Civil e o Ministério Público do Rio realizam, nesta quinta-feira, uma operação para prender 13 pessoas envolvidas em uma quadrilha especializada em furto de petróleo. De acordo com a Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), o grupo utilizava perfurações clandestinas em dutos operados pela Transpetro e causou um prejuízo estimado em mais de R$ 5,8 milhões. Além dos mandados de prisão, a ação também visa cumprir 16 mandados de busca e apreensão, realizados de forma simultânea em outros cinco estados, para a apreensão de provas materiais e documentais.
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Seis pessoas já foram presas. São elas: Elton Félix de Oliveira, Patrick Teixeira Vidal, Washington Tavares de Oliveira, Leandro Ferreira de Oliveira, Jairo Lopes Claro e Caio Victor Soares Diniz Ferreira.
A operação acontece de forma simultânea nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio de Janeiro. A investigação da DDSD revelou que o grupo criminoso funcionava com divisão de tarefas, hierarquia operacional bem definida e articulação logística interestadual. O objetivo da estrutura da quadrilha era realizar, de forma sistemática e reiterada, furtos qualificados de petróleo, mediante perfuração indevida de dutos subterrâneos em plena operação.
Os criminosos utilizavam meios técnicos sofisticados, além de vigilância e escolta armada. Também contratavam empresas para o transporte do produto furtado e atuavam para dissimular a origem ilícita do material, por meio da falsificação ideológica de documentos fiscais, rotulando o petróleo bruto como suposto “resíduo oleoso”.
Fazenda de família da contravenção
A investigação da Polícia Civil identificou que o núcleo operacional da extração clandestina de petróleo funcionava no interior da Fazenda Garcia, localizada no município de Guapimirim. Segundo a DDSD, o local pertence a uma família de contraventores amplamente conhecida, a família Garcia, que ganhou notoriedade após ter sua história retratada no documentário “Vale o Escrito”. Filha do bicheiro Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, Shanna Garcia também ganhou projeção após participar do documentário exibido no Globoplay.
De acordo com a polícia, a escolha da fazenda não foi aleatória e teve como objetivo dificultar a fiscalização, controlar o acesso de terceiros e garantir a continuidade da subtração ilícita em larga escala, protegendo a atividade criminosa. Apesar disso, a Polícia Civil informou que não encontrou nenhuma evidência de envolvimento de Shanna Garcia ou Tamara Garcia com o esquema.
Operação “Haras do Crime”
A investigação que culminou na operação começou em 2024, quando, na madrugada de 16 de junho, a polícia recebeu uma denúncia de furto de petróleo em um imóvel rural conhecido como Fazenda Garcia. No local, os policiais encontraram cinco caminhões-tanque, sendo três deles já completamente carregados. Cada veículo transportava cerca de 41 mil litros de petróleo bruto, totalizando aproximadamente 123 mil litros de produto furtado. À época, uma equipe técnica da Transpetro confirmou a existência de uma derivação clandestina instalada diretamente em um dos dutos que passavam pelo local.
Além dos caminhões, foram apreendidos instrumentos utilizados na perfuração e na transferência do petróleo, como mangueiras, bombonas, cavadeiras e registros clandestinos.
A partir desse caso, a DDSD apurou que o furto não se tratava de um fato isolado, mas da atuação de uma organização criminosa interestadual, com ações no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais.
O grupo funcionava em cinco núcleos operacionais:
- Núcleo de Liderança: responsável pela coordenação geral da empreitada criminosa, pelo planejamento das derivações clandestinas, definição de rotas, contratação de transporte, articulação comercial e comando das ações.
- Núcleo Empresarial e Logístico: encarregado do fornecimento da estrutura empresarial, caminhões-tanque, contas bancárias e documentos fiscais utilizados para dar aparência de legalidade ao transporte do petróleo furtado.
- Núcleo dos Motoristas: responsável pela execução material do transporte do petróleo subtraído, com a condução de caminhões-tanque em comboios, seguindo ordens centralizadas, operando sob escolta armada e realizando viagens interestaduais para o escoamento do produto.
- Núcleo de Segurança Armada: responsável pela proteção da operação criminosa, controle de acesso ao imóvel rural, vigilância do ponto de derivação clandestina, escolta dos caminhões e intimidação de terceiros, inclusive equipes de fiscalização da Transpetro.
- Núcleo de Facilitação: segundo a investigação, o responsável por esse núcleo, na condição de arrendatário da Fazenda Garcia, teria permitido e facilitado o acesso da organização criminosa ao imóvel. Ele teria autorizado a entrada de pessoas e veículos sem controle, apesar de ter conhecimento da existência do duto e das fiscalizações periódicas realizadas pela Transpetro, viabilizando a instalação da derivação clandestina.
De acordo com a DDSD, o esquema criminoso funcionava em quatro etapas. A primeira consistia na perfuração clandestina do duto, que, após ser violado, permanecia sob proteção armada para evitar a descoberta. Em seguida, ocorria o carregamento rápido do petróleo em caminhões-tanque previamente posicionados. A terceira etapa envolvia o transporte clandestino do produto, feito por rotas interestaduais previamente definidas. A fase final consistia na comercialização do petróleo furtado, realizada mediante a emissão de notas fiscais falsas por empresas usadas como fachada. Segundo a DDSD, esse procedimento conferia aparência de licitude a um produto de origem manifestamente criminosa.
Para os investigadores, a complexidade do esquema evidencia um modelo criminoso “consolidado, permanente e altamente profissionalizado”.
Alvo é investigado desde 2017
Um dos alvos da operação desta quinta-feira é Mauro Pereira Gabry, de 37 anos. Ele é investigado por crimes desse tipo desde 2017 e já foi preso duas vezes. Além dele, Elton Félix de Oliveira e Davison Luiz Senhorini também são alvos da operação e foram apontados, assim como Gabry, como lideranças em esquemas de furto de petróleo. De acordo com a DDSD, além dos furtos, o grupo praticava outros crimes, como tentativas de intimidação de testemunhas, destruição de provas eletrônicas e ocultação de veículos e equipamentos utilizados nas ações criminosas.

