O diretor Luiz Antonio Pilar vem, há alguns anos, construindo algo raro na cena brasileira: um verdadeiro panteão de heróis e heroínas da nossa ancestralidade negra. Ao trazer para o palco figuras historicamente apagadas, ele não apenas revisita o passado — ele o reinscreve.
Em “Os Irmãos Timótheo da Costa”, com texto de Claudia Valli e direção de Muato, esse gesto ganha ainda mais força ao apresentar ao público artistas de enorme relevância que permaneceram, por tanto tempo, praticamente desconhecidos. Arthur e João Timótheo foram dois dos maiores artistas plásticos do início do século XX — e, ainda assim, ficaram à margem da história oficial.

Há algo de profundamente potente nesse movimento. Pilar entende que o apagamento não é só ausência — é projeto. E responde com estética: cria presença, devolve rosto, corpo e voz a nomes silenciados. E faz isso sem didatismo, apostando na experiência sensorial como forma de conhecimento.
A mise-en-scène é delicada e vibrante, acompanhando o ritmo das próprias obras dos irmãos. Há um cuidado evidente em não cristalizá-los no passado, mas fazê-los pulsar. A cena respira junto com a pintura, criando um diálogo contínuo entre imagem, corpo e tempo. Não ilustra — evoca.
Ao mesmo tempo, o espetáculo escancara a estratificação da sociedade brasileira e as dificuldades impostas aos artistas negros, sobretudo no pós-abolição. Não é só sobre arte — é sobre lugar, acesso e sobrevivência. Ainda assim, eles deixaram marcas concretas: obras que atravessam o tempo, muitas vezes tratadas como decoração, mas carregadas de sofisticação técnica e simbólica.

A música entra como camada essencial, trazendo beleza — e contradição. Funciona como comentário histórico e emocional, ampliando o impacto da montagem e reforçando o contraste entre brilho artístico e violência estrutural.
Outro acerto é a escolha dramatúrgica de expor o próprio processo de criação. A presença de uma pesquisadora e de um diretor em cena revela a angústia de construir narrativa a partir de lacunas históricas. A metalinguagem, longe de enfraquecer, só reforça a urgência do tema.
Os figurinos de Rute Alves merecem aplauso à parte: alfaiataria precisa, elegante, sem caricatura. O que se vê é dignidade, presença e sofisticação.
No fim, é dessa mistura — entre a falta de registro e a urgência de contar — que nasce um espetáculo bonito e necessário. Em tempos de excesso de produção e pouca profundidade, “Os Irmãos Timótheo da Costa” é quase um respiro.
A entrevista com Luiz Antonio Pilar:
1 – Como surgiu a ideia de levar os irmãos Timótheo à cena?
A ideia nasceu de uma provocação do Emanuel Araújo, artista plástico e então curador do Museu Afro-Brasil, em São Paulo. Ele fez uma exposição dedicada aos irmãos Timótheo da Costa, reunindo obras que estavam com colecionadores particulares. Quando fui à abertura, fiquei impressionado — tanto pela qualidade quanto pelo fato de eu não conhecer. E ele me provocou: “Em vez de dirigir essas novelas chatas, por que você não faz um filme sobre eles?”. Saí de lá com isso na cabeça. Fui pesquisar e encontrei pouca coisa. A base da peça acabou sendo o catálogo dessa exposição.
2- A encenação propõe um diálogo direto entre pintura e cena. Como foi esse processo?
Eu quero voltar para o audiovisual, depois de fazer o Neguinho da Beija-Flor. Teatro dá muito trabalho (risos). A ideia era fazer o público ter o mesmo impacto que eu tive. Não adiantava só falar — eu queria mostrar. A solução foi apostar na linguagem. Fizemos uma pesquisa grande e usamos uma tela especial, com transparência, que permite projetar as obras enquanto os atores compõem a cena. O texto funciona quase como guia. A ideia era criar uma experiência sensorial, com a cena dialogando diretamente com a imagem.
3- As atuações fogem da imitação clássica de época…
Eu não acredito nessa fidelidade absoluta. Quando a gente conta a história de personalidades negras, num passado tão delicado, precisa ter uma visão mais ampla — imaginar também o que ficou fora da narrativa oficial. E sempre que posso, eu valorizo mais do que fico só relatando as dores. Não acredito em documento puro — nem documentário é totalmente fiel. Sempre existe interpretação, e isso já é ficção. Então me permito recriar a época, com o olhar de hoje ajudando a iluminar certas questões.
4 – A montagem equilibra memória e reinvenção — isso foi intencional?
Totalmente. Pedi à autora, Claudia Valli, que trouxesse elementos contemporâneos. Por isso existe a narradora, que está escrevendo sobre eles, e o diretor dentro da peça. Quando a gente olha para o passado, não está reproduzindo exatamente — está reinterpretando. E ninguém me convence de que, naquela época, essas pessoas não podiam rir, brincar, dançar. Eu quis aproximar isso do público de hoje, tirar um pouco da rigidez e humanizar essas figuras.
Serviço:
CCBB
Até 19 de abril, às segundas, quintas e sábados, às 19h, e domingos, às 18h.
Ingressos aqui.


