Teatro, por Claudia Chaves: “Maldita”, da Cia. Cerne

Tempo de leitura: 6 min


Gosto, aprecio e admiro profundamente os grupos de teatro da Baixada Fluminense. São artistas que, muitas vezes, operam à margem — quase bastardos de um sistema que privilegia jovens com poder aquisitivo para terem formação. Ainda assim, estão lá: criando, transformando, atuando em coletivo e entregando um teatro radicalmente contemporâneo. E, quase sempre, surpreendente.

Foi exatamente essa surpresa que encontrei em “Maldita”, da Cia. Cerne, de São João de Meriti.

(Stephany Lopez/Divulgação)

Inspirada na Trilogia Tebana de Sófocles — que narra o mito de Édipo e sua descendência — a montagem transforma três tragédias monumentais em uma peça curta que não perde nenhum detalhe essencial. Ao contrário: reinventa tudo.

O que se vê em cena é uma verdadeira féerie popular, que mistura teatro de revista, chanchada, cabaré e teatro clássico com precisão e frescor. Ao combinar diferentes formas performativas, a Cia. Cerne constrói uma narrativa em três capítulos — quase um microsseriado teatral — povoado por uma galeria diversa de personagens.

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(@renataprado.arte/Divulgação)
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Os artistas cantam, dançam, tocam instrumentos e atuam em um uníssono raro, sustentado por um equilíbrio coletivo que impressiona. Há domínio de cena, tempo de comédia e, sobretudo, presença.

Idealizada e encenada por artistas da Baixada Fluminense, a montagem é um acerto em tudo a que se propõe. Maldita é uma realização do Instituto Cultural Cerne, através da Escola Popular de Teatro da Baixada, fruto de processos formativos em Montagem Teatral e Direção de Arte.

Com dramaturgia e direção de Rohan Baruck, o espetáculo reúne 22 atores e atrizes de uma nova geração de artistas baixadenses, que fazem rir, pensam cena e sustentam a narrativa com vigor.

Ao explorar Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona, a peça percorre toda a linhagem de Laio e Édipo com clareza. O caráter didático não empobrece — organiza. Torna acessível sem simplificar.

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(@renataprado.arte/Divulgação)

Agora, com indicações ao Prêmio APTR e ao Prêmio do Humor, vem o reconhecimento. Mas, na verdade, a vitória já estava dada: fazer esse percurso com coragem, invenção e potência.

Resta a nós dizer o óbvio — e o necessário: sigam. Não desistam jamais. Dionísio está entre vocês.

Entrevista com Rohan Baruck:

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1 -Como nasceu a ideia de transformar a trilogia tebana em cabaré?

O espetáculo nasce de uma pesquisa sobre o Teatro Jovem, que realizo desde 2017. À época, eu dava aulas de teatro para jovens de até 21 anos, no Teatro Municipal Ziembinski, e passei a investigar formas de pensar o teatro para um grande gap de público que temos. Como não soltar a mão do público que sai da infância e não encontra obras que dialoguem com jovens adultos? Maldita nasce após anos de gestação. Maturei a proposta e transformei em um espetáculo maior, em 2022. Em 2025, com a colaboração de atores da Baixada Fluminense, refinamos a obra e a linguagem de encenação. Nunca foi nossa intenção fazer de Maldita um cabaré.

2 -As peças de Sófocles falam de destino, poder e culpa. Como trazer isso para o público de hoje?

“Maldita” nasce também de uma tentativa de desmistificar os clássicos, torná-los mais próximos da nossa realidade. A comédia é um recurso primordial na montagem. A ironia, o deboche e o escárnio são a nossa lente de aumento para desconstruir o clássico. Assim, o público acompanha a complexidade das tragédias com um repertório contemporâneo. O destino, o poder e a culpa sempre estiveram ali. Em Antígona, a comédia vai, aos poucos, cedendo espaço à tensão.”

3 -Vocês sentiram que estavam ‘invadindo’ um território dentro do teatro?

Somos um grupo da periferia do estado, da Baixada Fluminense. Isso, por si só, já é uma invasão da praia teatral. Ainda somos muito associados apenas às nossas próprias vivências. Com Maldita, queríamos fazer um teatro diferente. Queríamos rir — e fazer rir — com pesquisa e desenvolvimento artístico. A comédia também é um campo de estudo, talvez dos mais complexos. Não queríamos ficar só na beirinha da água.

4- Como foi adaptar Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona?

Nos permitimos usar as dramaturgias trágicas como experimento para diferentes linguagens cômicas. Seguimos à risca as tragédias, mas com nossas palavras, nosso jeito. Questionamos a tragédia com bom humor. A reinvenção veio justamente dessa tentativa de entender suas complexidades sob a lente da comédia.

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5 -E agora, o que vem pela frente?

Estamos muito felizes com o sucesso de Maldita. Em pouco mais de um ano, alcançamos mais de 3.000 espectadores, participamos de uma mostra internacional e fomos indicados ao Prêmio do Humor e ao APTR. Estamos encerrando uma temporada no Teatro Municipal Ziembinski com mais de 400 ingressos vendidos antecipadamente. Queremos continuar nossos estudos e criar algo tão subversivo quanto Maldita. Esse segue sendo o caminho.

Serviço:
Teatro Municipal Ziembinski
Sextas e sábados, às 20h
Domingos, às 19h

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-por-claudia-chaves-maldita-da-cia-cerne/

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