Em cartaz no Futuros – Arte e Tecnologia, no Flamengo, com o espetáculo “A Cuca”, Renato Rocha é um daqueles artistas que não se deixam limitar por uma única linguagem — e talvez por isso nunca tenha tentado se enquadrar. Desde muito cedo, circula pela Estação Primeira de Mangueira, onde o corpo aprende antes da teoria e o rito vem antes do conceito.
Mais tarde, ampliou o horizonte em Londres, com a Royal Shakespeare Company, dialogando com a cena internacional sem perder o lastro do carnaval, da rua e do risco. Criador de projetos que atravessam circo, teatro e performance, já levou o público a experiências site-specific radicais — como uma encenação que incluía, sem aviso prévio, um mergulho coletivo na piscina da icônica Casa da Glória.

Renato trabalha sem pedir licença: abrange as artes de forma destemida, rejeita fórmulas e, a cada novo trabalho, reinventa completamente sua gramática. Em A Cuca, essa trajetória encontra um ponto de ebulição. A obra nasce de uma pergunta desarmante de sua filha, Julieta — “Papai, o mundo vai existir?” — atravessada por uma imersão profunda na Amazônia, onde o artista deslocou seu eixo de criação para uma escuta mais radical. O projeto Casa Comum, financiado pelo British Council, aconteceu no coração da floresta com o povo indígena Sateré Mawé.

Antes de chegar ao palco, “A Cuca” foi corpo em trânsito: testada na rua, nos blocos e no encontro direto com o público, como se precisasse existir primeiro no mundo para depois se formalizar como obra. Esse percurso culmina em apresentações que evidenciam sua capacidade de construir experiências de “arte total”, onde imagem, som, corpo e política se entrelaçam sem hierarquia. Renato não repete, não acomoda, não suaviza: ele cria. E cria sem medo de ser feliz.
1 -Você transita entre teatro, carnaval e circo. “A Cuca” concilia arte popular e arte erudita?
Acredito que sim. A Cuca é essa convergência entre diversas formas, principalmente a arte popular, mas em diálogo próximo com o erudito. Se pensarmos, por exemplo, em uma das grandes visões de Darcy Ribeiro, ele falava justamente desse encontro da força popular com a erudita. Acredito que a obra seja uma representação disso: da força da dança, do samba, da cultura popular, do carnaval, do circo e do teatro, somados à poesia, à tecnologia e à videoarte.
2 – Como o figurino se torna um personagem nesta obra?
Quando deixa de ser olhado como traje e passa a ser como um “parangolé”: quando é vestido, ele dança. É uma obra de arte vestível que se torna pele, habitat, visagem. Na cultura indígena, quando você se transmuta em um ancestral ao vestir a máscara, você o invoca. No caso, invoco minha avó pernambucana, minha bisavó e essa linhagem de mulheres da minha família para falar com a Julieta. A partir daí, o figurino torna-se portal, um “entremundos”, um ser mitológico que transita entre tempos em uma voz intergeracional.
3 – O que provocou sua volta à cena como ator depois de 14 anos?
A própria Julieta. Quando ela faz a pergunta disparadora — “Papai, quando eu crescer, o mundo ainda vai existir?” — durante o projeto Casa Comum, ela traz um questionamento que só eu posso responder. É uma pergunta em movimento. Se preciso criar uma obra para tentar responder, ela precisa ser respondida por mim, presencialmente. Isso me provocou a voltar à cena e entender o que meu corpo de performer ainda é capaz de traduzir. Não tinha outro jeito: eu precisava voltar após 14 anos para fazer essa “carta-espetáculo” para minha filha.
4 – Como você preparou o corpo para que ele não fosse apenas representação, mas experiência?
A preparação permeia o campo da performance, onde a experiência se dá no real, entre mim e as pessoas. Não há personagem ou subterfúgios: sou eu, Renato, pai da Julieta, falando. Houve um trabalho físico de condicionamento após tanto tempo longe do palco, mas também um condicionamento poético e sensível. É entender o que esse corpo aos 50 anos ainda dá conta de fazer e como trazer o que o corpo tem de memória, como dizia Grotowski. O que essa memória ainda reaflora para a cena.
5 – E o que a Julieta acha da Cuca?
Ela acompanha essa criação há alguns anos com curiosidade: quem é a Cuca, o imaginário da colonização, a cultura africana e indígena, e o pai no carnaval dos blocos do Rio. Na cena, a obra ficou muito emotiva, com ela aparecendo em vídeo e som; houve uma certa exposição. Na estreia, ela ficou muito emocionada. Agora, ela transita pelas coxias, brinca com os adereços e vai se apropriando — talvez pensando que a Cuca é ela.
Serviço:
Teatro Futuros | Futuros – Arte e Tecnologia (Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo)
Até 29 de março, de quinta-feira a domingo, às 19h


