O macho alfa e a fêmea beta: anatomia de um crime

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Tenente-coronel Geraldo Leite e a esposa, a soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana — Foto: Reprodução/Redes Sociais


A história pavorosa de Gisele Santana, 32 anos, a PM morta em casa com um tiro na cabeça, será um dia minissérie na TV, como foi “Ângela Diniz: assassinada e condenada”. O crime de Doca Street aconteceu em 1976. Por ciúme. Três tiros no rosto e um na nuca. Agora, meio século depois, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 53, foi indiciado por matar a esposa e simular suicídio. Acaba de ser preso.

Espero que o primeiro episódio da minissérie “Gisele e Geraldo” seja a condenação do “macho alfa” à pena máxima por feminicídio, 40 anos. Que não pegue uma sentença chinfrim. O desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, “o melhor amigo”, o visitou após o crime e antes da perícia. À tarde, três PMs mulheres limparam o sangue no apartamento. Sério: isso é função de PM mulher? Humilhante.

Meu primeiro choque foi Gisele ter sido sepultada sem se colocar em dúvida a versão do tenente-coronel. Foi preciso a mãe dela denunciar o comportamento abusivo e possessivo de Geraldo. Foi preciso a família gritar que ela queria se separar e jamais se mataria, deixando órfã a filha de sete anos. “Mãe”, dizia Gisele, “não posso usar batom que ele fica reclamando. Nem calça jeans, perfume”.

Só depois de Gisele ter sido exumada surgiu o que a Justiça chama de “mosaico probatório”: uma montanha de provas das mentiras, frieza e manipulação do tenente-coronel. E as mensagens. Que horror.

“Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa – com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser”, escreveu.

E as regras? “Não cumprimentar homens com beijo no rosto e abraços”. “Lugar de mulher é em casa cuidando do marido e não na rua caçando assunto”. “Sou Rei, Religioso, Honesto, Trabalhador, Inteligente, Saudável, Bonito, Gostoso, Carinhoso, Romântico, Provedor, Soberano”.

Geraldo, em entrevista a Roberto Cabrini, da TV Record, exibiu seu retrato de farda, emoldurado, suas medalhas e promoções em 35 anos de PM. Falou absurdos. Que as marcas no pescoço de Gisele teriam sido feitas pela filha “que subia no colo da mãe feito macaquinha”. Ou pela própria Gisele. Ela teria encenado ter sido esganada para incriminar o marido. Um “suicídio premeditado”. Surreal.

Nem vou detalhar os depoimentos dos peritos, os laudos balísticos, os banhos suspeitos, o sumiço da cápsula e o sangue encontrado com luminol em sua bermuda e no box do banheiro. Para tudo Geraldo tem um texto decorado, sem mover um músculo da face. “Éramos um casal maravilhoso, perfeito”.

Um macho alfa. E uma fêmea beta. Que deveria ter se separado dele faz tempo. “Ela não me temia. Ela me amava”, disse Geraldo. Provavelmente, temia e amava. Até que desistiu. “Praticamente solteira”, escreveu ao marido. “Nunca. Jamais será”, ele respondeu.

Para quem a culpa por não ter agido antes, conto uma história. Eu tinha 14 anos quando comecei a namorar. Foi só o namoro ficar “firme” que os sinais de abuso e ciúme possessivo emergiram. Quem você encontrou? A que horas chegou em casa? Passou a me beliscar. Puxava meu cabelo. Depois, pedia desculpas. Eu aceitava. Não contava a ninguém. Era o primeiro amor.

Foram três anos de namoro. Até que ele quase me matou com caldos no mar de Copacabana. Senti a mão dele me prendendo. Gritos de surfistas o fizeram cair em si. Soltou minha cabeça, eu subi à tona aos soluços, de choro e água salgada. Terminei o namoro no mar, para sempre. Vi o ódio em seus olhos. No futuro, eu seria assassinada.

Lembre: misóginos e narcisistas gostam mesmo é de homens e de si mesmos. Mesmo os dissimulados. Desprezam e usam as mulheres, para seu prazer e conforto. Afaste-se deles. Não são alfa nem beta.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/cultura/ruth-de-aquino/coluna/2026/03/o-macho-alfa-e-a-femea-beta-anatomia-de-um-crime.ghtml

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