Autora de obras de estilos variados, com um livro de contos e um de poesia premiados — “Enfim, imperatriz” (Prêmio Jabuti, 2018) e “179. Resistência” (Prêmio Literário Biblioteca Nacional, 2020) —, Maria Fernanda Maglio lança agora seu segundo romance, “Lá é o tempo”. A autora paulista segue com foco em suas narrativas de desconforto ao leitor e atmosferas de suspense, tal como já fez no romance anterior, “Você me espera para morrer?”, em que as irmãs gêmeas Aline e Ilana fazem a promessa de morrerem juntas quando crianças, mas se separam ainda na adolescência.
“Lá é o tempo”, novamente uma história sobre separação, brinca com a ideia temporal não apenas no título, mas na narrativa, já que há dois tempos entrelaçados compondo o livro. No presente, acompanhamos uma polifonia de vozes, entre elas a de alguém que se dirige na segunda pessoa a um escritor não nomeado e viciado em drogas. O escritor se separa temporariamente de sua mulher para investigar um assassinato de um traficante em uma pequena cidade, cometido anos atrás por um adolescente de 13 anos. Ele deseja, a partir de suas descobertas, escrever sobre o caso, o que confere um efeito metalinguístico ao livro, principalmente quando aparecem as vozes das pessoas que o escritor entrevista ao longo do caminho como se fossem as transcrições literais do que elas disseram a ele.
Já no passado, encontramos o ponto de vista de André, o adolescente acusado do assassinato do traficante Tonho Lima. O menino, que quase não se expressa com as pessoas, ganha voz a partir de um narrador em terceira pessoa, que relata seus sentimentos a partir do momento em que ele fica sabendo que Tonho Lima teria matado o borracheiro e mecânico Salu, com quem André tinha uma relação quase filial. O borracheiro foi uma espécie de mentor para o adolescente, e a separação causada pela morte cria um vazio impossível de tapar no peito do menino.
O tom de voz dessa linha narrativa dá a carga de incômodo comum às obras de Maglio: não queremos acreditar que o adolescente, a quem somos próximos e distantes ao mesmo tempo, realmente cometeu um crime. “E um dia matam esse homem, e o menino morre por dentro, mas isso também ninguém sabe, porque ninguém sabia do amor e ele jura por deus que vai se vingar”, escreve a autora. Assim, o caso vai sendo montado como um quebra-cabeça em um jogo duplo de investigação: por um lado, o escritor interroga as pessoas da cidade e compartilha as dúvidas, como o fato de não parecer plausível um adolescente franzino e que nunca teve acesso a qualquer arma ter conseguido assassinar um traficante com sete tiros na cabeça. Por outro lado, o leitor investiga a voz narrativa do personagem André, que a princípio soa como alguém incapaz de ferir, mas que teria as motivações para perseguir e matar Tonho Lima caso tivesse a oportunidade.
Além disso, há diversos elementos de mistério e terror não explicados na história, como a figura de um gato amarelo pregado em uma árvore que reaparece 20 anos mais tarde, entre outros aspectos que dão a ideia de algo cíclico. As próprias histórias contadas pelos moradores locais às vezes soam inexplicáveis ou inverossímeis e se somam ao uso da cocaína por parte do escritor, deixando ainda mais difícil entender quais experiências são reais. A própria metalinguagem é confrontada ao final: “Você ainda tentará escrever esta história algumas vezes, mas nunca vai conseguir. E este livro nunca será escrito.”
Dessa forma, toda a obra, desde a sua maneira fragmentada de narrar até os seus elementos misteriosos, reflete a natureza de casos reais de assassinatos que nunca tiveram solução e a dificuldade de entender os motivos que levam alguém a tirar a vida de outra pessoa. Na história de Maglio, amor, dor e morte se entrelaçam de forma indissociável. Esse estudo, além do fato de Maglio flertar com diversos gêneros literários (como o romance policial, a ficção de mistério e a fantasia), ajudam a dar o tom incômodo de “Lá é o tempo”, porém desta vez a autora não se ancora em nenhum dos gêneros, decisão que talvez tenha feito o fim do romance ficar menos polido, ainda que essa tenha sido a sua obra mais ousada até agora.
Bruna Meneguetti é jornalista e escritora

