Se você ainda acha que menopausa é sinônimo de desacelerar, Claudia Raia está no Teatro João Caetano para chutar esse balde — e provavelmente usar o balde para colocar gelo e aliviar o fogacho. Em Cenas da Menopausa, a diva desce do pedestal para falar do que a sociedade prefere varrer para baixo do tapete e não apenas tira o elefante branco da sala, como o coloca para dançar.
O recado é claro: para quem achava que o espetáculo estava acabando, sinto informar que o segundo ato mal começou. E como lembra seu companheiro de cena e de vida, Jarbas Homem de Mello, “o segundo ato é sempre o melhor”. Uma declaração de quem também passou pela menopausa da mulher, entendeu a importância masculina no apoio e percebe a potência que tem a seu lado.
A peça é um deleite de metalinguagem que evoca o saudosismo de Nas Raias da Loucura. Lembra daquela agilidade de trocas de roupa frenéticas? Pois bem, Claudia resgata o truque de trocar de figurino ali mesmo, na frente de todo mundo, despindo-se literalmente de qualquer pudor que a maturidade costuma levar embora e nesse striptease de realidade, sobra até para o marido.
Esqueça o casal de comercial de margarina; no palco, os nomes artísticos ficam no cabide. Ela evoca o Jarbas Moises e ele rebate com Maria Claudia. Esse jogo de nomes humaniza os dois e transforma o palco em um quintal de casa, onde a intimidade é a grande protagonista. É um “DR” pública, mas com um timing cômico que pouca gente no Brasil domina.
A trilha sonora é um capítulo à parte e um deleite para quem viveu o auge das pistas de dança. Imagine hits dos anos 70 e 80 repaginados pra falar de climatério, começando com Hot Stuff ganhando um sentido literalmente calorento, Total Eclipse of the Heart virando um hino ao apagão hormonal, e os clássicos de Tina Turner surgem para provar que, sim, Claudia ainda tem as pernas (e o fôlego) mais invejados do Brasil.
E se você acha que já viu de tudo, espere pelo momento que Jarbas de Mello surge caracterizado de Madonna. Ver o marido da diva encarnando a Rainha do Pop é o tipo de autodeclaração de amor e parceria que só um casal que não se leva a sério — mas leva a arte muito a sério — consegue entregar. É hilário, é cafona na medida e é absolutamente genial.
Ao final, o clima de grande show dá lugar a um divã e o bate-papo com a plateia vira uma espécie de terapia de grupo coletiva. Mulheres que entraram ali se sentindo invisíveis saem com o queixo erguido, percebendo que o calorão da menopausa é, na verdade, o fogo necessário para incendiar o resto da vida.
Vá pelo deboche, fique pela catarse e saia com a certeza de que, se a vida é um palco, Claudia Raia acabou de renovar o contrato para mais meio século de aplausos.
* Texto do colaborador Thiago Machado

