Sem limpar o Estado, não há combate ao crime

Tempo de leitura: 5 min
Deputado Marcio Canella é preso pela PF — Foto: Divulgação / PF


As operações policiais desta semana no Rio de Janeiro oferecem o diagnóstico mais urgente para o debate presidencial deste segundo turno. Em apenas 48 horas, ficou exposta a simbiose entre agentes do Estado e crime organizado, operando tanto na base tática das ruas quanto na cúpula político-institucional.

Na terça-feira, a Polícia Civil mirou policiais militares acusados de vender armas, escoltar traficantes e vazar operações ao Comando Vermelho (CV). Na quinta-feira, a oitava fase da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal, prendeu o ex-prefeito de Belford Roxo e segundo deputado estadual mais votado do Rio, Márcio Canella, quatro inspetores e o ex-secretário de Polícia Civil Marcus Amim. Segundo a PF e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o grupo garantia proteção institucional e lavava recursos em 112 empresas (96 postos de combustíveis) que movimentaram R$ 7,6 bilhões em seis anos.

Para quem conhece a realidade policial por dentro e dedica o doutorado a pesquisar o crime organizado, esses fatos não revelam desvios isolados, mas uma patologia estrutural. Com Amim, o Rio soma cinco ex-chefes da Polícia Civil presos desde 2008. Mais grave é a captura legislativa: para que ele assumisse a pasta em 2023 sem o tempo mínimo na carreira, a Alerj mudou às pressas a Lei Orgânica da instituição, com apoio do grupo político com que agora foi preso.

A apuração expôs ainda um pragmatismo que supera velhas divisões: o grupo suspeito de abrigar aliados de milícias negociava, via Prefeitura e um oficial da PM, uma “trégua” com o CV, reduzindo operações em troca da retirada de barricadas para obras. Quando o poder público muda leis para lotear comandos policiais e negocia tréguas com facções, o Estado deixa de combater o crime para tornar-se seu fiador.

Isso derruba dois mitos: que a violência se resolve só pelo confronto letal nas favelas e que se pode asfixiar financeiramente o crime sem enfrentar a corrupção estatal. No varejo armado, a mão de obra para empunhar fuzis é elástica e de rápida sucessão. Para operar fintechs, redes de postos ou garantir blindagem em delegacias, batalhões e parlamentos, o capital humano é escasso. Sem cortar a corrupção que vaza operações e desvia armas e munições públicas, nenhum plano de retomada territorial vingará, como provaram o colapso das UPPs e as megaoperações letais.

Por isso, os presidenciáveis devem superar pirotecnias penais, da disputa no Senado para reduzir a maioridade penal na PEC da Segurança ao rótulo inócuo de “terrorismo”, e concentrar-se no papel cada vez mais necessário da União. Não se trata de intervir militarmente, modelo que em 2018 custou R$ 1,2 bilhão no Rio para apreender 1,19 arma por ação, nem de sobrepor Brasília aos estados, ignorando a autonomia de 27 unidades federativas.

O papel urgente do governo federal é atuar como grande apoio de inteligência financeira e insulamento investigativo para que os estados consigam combater a infiltração criminosa nas instituições. Quando estruturas locais são capturadas, o autocontrole correcional se anula. A Operação Unha e Carne e o caso Marielle só avançaram graças à ação externa da PF e da Procuradoria-Geral da República, sob supervisão do Supremo Tribunal Federal na ADPF 635 (ADPF das Favelas).

Esse trabalho exigirá do próximo presidente grande articulação política, acima de diferenças ideológicas, pois o crime organizado se infiltra em todo o espectro partidário. Cabe à União expandir as Forças Integradas (Ficco), cruzar dados do Coaf e da Receita contra a lavagem de dinheiro e vincular verbas do Fundo Nacional de Segurança Pública a corregedorias autônomas, despolitizar chefias policiais e controle de paióis. Sem combater a corrupção, nenhum projeto devolverá nossos territórios à cidadania e à democracia.

*Roberto Uchôa, doutorando no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e associado sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foi policial federal e policial civil no Rio de Janeiro



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/coluna/2026/10/sem-limpar-o-estado-nao-ha-combate-ao-crime.ghtml

Compartilhe este artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *