A Polícia Civil prendeu em flagrante, nesta quinta-feira, seis funcionários de uma empresa de telecomunicações suspeitos de participar de um esquema ligado ao Comando Vermelho (CV) para impor o monopólio do fornecimento de internet em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio. Segundo a 20ª DP (Vila Isabel), o grupo cortava cabos de operadoras regulares e usava ameaças para obrigar moradores a contratar os serviços de uma empresa de fibra óptica.
A investigação começou após informações de inteligência indicarem que moradores eram ameaçados para contratar exclusivamente os serviços da empresa. De acordo com os agentes, o grupo cortava sistematicamente os cabos de fibra óptica de operadoras regulares e impedia que técnicos dessas empresas realizassem os reparos necessários, deixando os clientes sem acesso à internet.
Durante a operação, os policiais apreenderam dois carros, cerca de três quilômetros de cabos e equipamentos utilizados na instalação da rede. A perícia técnica foi acionada para documentar a interrupção dos serviços e os danos à infraestrutura.
Os seis funcionários foram levados à delegacia e autuados em flagrante por extorsão e integração de organização criminosa.
Segundo a delegada responsável pelo caso, Camila Neves, a prática é uma estratégia recorrente do Comando Vermelho, que já atua nesse segmento no Morro dos Macacos, nas proximidades do local da operação. Segundo ela, a facção tem diversificado suas fontes de renda e explorado atividades econômicas como o comércio de gás, o fornecimento de internet e até a cobrança de aluguéis em comunidades. Essa expansão, afirma, também tem alcançado áreas do chamado asfalto, fora dos limites das favelas.
— Essa prática tem se expandido para além dos domínios das comunidades. Ela não tem ficado restrita apenas às comunidades e tem ganhado o asfalto, tem ganhado as ruas. Então, esses traficantes entram em contato com o síndico, assumem o controle de câmeras de segurança, cortam, interrompem o fornecimento de internet de outras operadoras, deixam os moradores por dias sem internet e, logo após, ingressam com o serviço de internet ligado a eles. Esse serviço de internet opera como um braço financeiro da narcotraficância, estabelecendo um monopólio nas regiões por eles dominadas e impondo [o serviço], de modo que o morador não tenha oportunidade de escolher o prestador — explica a delegada.
Neves ressalta que o serviço de internet não é necessariamente clandestino do ponto de vista regulatório, uma vez que a atividade é regulamentada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A ilegalidade, segundo ela, está na atuação vinculada a uma organização criminosa e na imposição do serviço por meio de práticas criminosas.
A delegada também revelou que, enquanto a nova rede era instalada, olheiros do tráfico circulavam pela região. O inquérito reúne relatos de moradores, segundo os quais um mototaxista que atuaria como olheiro da facção entrou no condomínio e fotografou áreas internas, em uma tentativa de intimidar os residentes.
Camila ainda disse que as investigações continuam para identificar os responsáveis pela coordenação da empresa e as lideranças do tráfico que seriam beneficiadas pelo esquema.
*Estagiária sob supervisão de Giampaolo Morgado Braga
