A Polícia Judiciária de Portugal apreendeu, em uma cela da prisão da cidade de Caldas da Rainha, um manuscrito que seria de uma célula do Primeiro Comando da Capital (PCC) e que traz dez regras para um grupo de brasileiros presos preventivamente no país. Entre as orientações estão a determinação para que os suspeitos permaneçam em silêncio durante os depoimentos e ameaças de morte para quem revelar informações sobre parentes ou a identidade do suposto líder. As informações foram divulgadas pela emissora local TVI e pela CNN Portugal.
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O documento teria sido escrito à mão por Ediel Nery, de 40 anos, apontado pela investigação como líder dos seis brasileiros que aguardam julgamento por suspeita de participação em uma série de assaltos a bancos em Portugal. Segundo a TVI e a CNN Portugal, o grupo teria roubado cerca de 1 milhão de euros de 15 instituições bancárias entre 2024 e 2025.
As anotações fazem referência a decisões tomadas em um “Conselho” e terminam com a assinatura “O Líder”. Entre os dez pontos, há orientações para os presos manterem o silêncio diante da Justiça, organizarem a defesa por meio dos advogados e não revelarem quem seria o chefe do grupo. Um dos itens prevê pena de morte para quem citar a identidade do suposto líder durante os depoimentos.
As regras encontradas foram atribuídas ao grupo investigado em Portugal. Elas não representam, necessariamente, orientações gerais ou uma cartilha oficial do PCC para seus integrantes em outros países. Os seis brasileiros estão em prisão preventiva e aguardam julgamento.
Investigação aponta ligação com o PCC
Segundo as informações divulgadas pela TVI e pela CNN Portugal, a Polícia Judiciária considera o manuscrito uma das evidências da possível ligação do grupo à facção brasileira. A Unidade de Contraterrorismo da PJ também teria seguido o caminho do dinheiro obtido nos assaltos e identificado transferências para contas no Brasil.
De acordo com o relatório final da investigação citado pelos veículos portugueses, parte dos valores foi enviada de forma fracionada para diferentes contas. Entre os destinatários mencionados estão Vinícius Moreira Gil, natural de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, e Robenson Santana Júnior, conhecido como “Pateta”.
A investigação portuguesa aponta que os dois teriam ligações com o PCC. O relatório também menciona antecedentes criminais atribuídos aos destinatários e descreve Ponta Porã e a região de fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina como uma área de interesse para a organização criminosa.
Segundo a apuração, parte do dinheiro roubado em Portugal teria sido transferida para o Brasil e poderia ter sido utilizada para financiar a organização.
Modelo de atuação teria sido levado para Portugal
A investigação da Polícia Judiciária também aponta semelhanças entre o modo de atuação do grupo em Portugal e práticas atribuídas ao crime organizado no Brasil.
Ediel Nery, apontado como cérebro dos assaltos, teria utilizado uma empresa de transporte de passageiros por aplicativo, a Requinte Esmerado Unipessoal Ltda., na estrutura criminosa. Segundo o relatório citado pela TVI e pela CNN Portugal, os veículos da empresa teriam sido utilizados tanto nos crimes quanto em operações de lavagem de dinheiro.
Nery chegou a ser candidato a deputado federal por Goiás em 2022. Antes disso, foi pastor e presidente da Assembleia de Deus Ministério Mundial.
O caso chama atenção em Portugal em um momento de crescente preocupação com a expansão internacional das grandes facções brasileiras. O PCC já possui atuação investigada em diferentes setores do crime organizado no Brasil, com apurações envolvendo tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, adulteração de combustíveis, contrabando e outros mercados ilícitos, além de conexões fora do país.
Na avaliação apresentada pela TVI, a apreensão do manuscrito seria uma evidência de que o PCC teria chegado a Portugal. A investigação portuguesa, contudo, ainda trata os envolvidos como suspeitos, e a existência de uma ligação da facção com o grupo será submetida ao processo judicial.
A repercussão internacional também ocorre após Estados Unidos e países latino-americanos adotarem medidas contra o PCC e o Comando Vermelho. Em junho, os EUA formalizaram a designação das duas facções como Organizações Terroristas Estrangeiras. Em setembro, outros 14 países que integram a coalizão Escudo das Américas também anunciaram a inclusão do PCC e do CV em uma lista de organizações consideradas terroristas.
