O boleto do condomínio disparou? O apartamento do vizinho que virou Airbnb pode estar ajudando a engordar a conta. Um levantamento do Secovi-Rio acendeu o alerta: os condomínios do Rio estão subindo bem acima da inflação. No Centro, a alta chegou a 11,8%. Na Zona Norte, o condomínio já pode consumir até 40,7% do valor do aluguel.
A inflação pesa. A inadimplência pesa. Água e segurança também. Mas tem um custo que está cada vez mais entrando no radar de síndicos e administradoras: a farra dos aluguéis de curta temporada. E aí começa a treta.
O turista chega. O boleto fica.
O Rio já tem cerca de 25 mil imóveis destinados à locação de curta duração, segundo levantamento do Secovi-Rio. Em vez de uma família morando no apartamento durante meses ou anos, o prédio passa a receber uma procissão de hóspedes. Chega um casal. Vai embora. Chega outra família. Depois um grupo de amigos. Malas no elevador, banho, água, energia, circulação nas áreas comuns, entrada e saída pela portaria.
E quem paga a conta dessa movimentação? Em muitos casos, o condomínio.
O banho do Airbnb pode cair no seu bolso
O alerta não é invenção de morador revoltado no grupo de WhatsApp. Representantes do setor condominial já apontaram que a alta rotatividade dos imóveis de temporada aumenta o uso de estruturas do prédio. O vice-presidente de condomínios do Secovi-Rio e diretor jurídico da Abadi, Roberto Bigler, citou justamente situações como o maior consumo de água e o uso intenso dos elevadores.
Uma administradora ouvida em audiência da Câmara do Rio também apontou aumento de despesas com água, luz e elevadores provocado pela locação de curta duração. E existe um detalhe que faz toda a diferença: se a água não é individualizada, o turista toma banho — e o condomínio divide a conta.
Traduzindo:
- o proprietário recebe a diária;
- o turista aproveita a praia;
- o hóspede toma banho;
- o elevador sobe e desce;
- e o morador que nunca alugou o apartamento pode ajudar a pagar.
É aí que mora a revolta.
A conta que não aparece no boleto
E talvez essa seja a parte mais irritante. O condomínio não manda uma cobrança dizendo: “Taxa extra — 37 banhos de turistas.” Nem: “Manutenção do elevador — malas do Airbnb.” Muito menos: “Portaria — 86 hóspedes cadastrados este mês.” Tudo entra no mesmo pacote. E é justamente por isso que o impacto financeiro do aluguel de temporada pode ficar escondido dentro das despesas gerais do condomínio.
O Secovi-Rio mostra que o custo do condomínio está disparando. Administradoras alertam para o impacto da rotatividade. E a Justiça já reconheceu que a exploração profissional de curta duração pode afetar a própria dinâmica residencial dos prédios. A pergunta que sobra é simples: quem está lucrando com o Airbnb e quem está pagando pelos efeitos colaterais?
Porque uma coisa é certa: o turista vai embora. O dono do Airbnb recebe. E o boleto do condomínio fica para quem mora lá.
O que diz o Airbnb?
O Airbnb adota uma postura oficial focada na defesa irrestrita do direito constitucional de propriedade e no amparo jurídico da Lei do Inquilinato. A empresa sustenta que a locação de curta temporada em plataformas digitais é uma atividade residencial legítima, que gera renda essencial para as famílias e impulsiona o turismo e a economia local, não devendo ser confundida com serviços comerciais de hotelaria.
Diante de decisões judiciais restritivas, como os entendimentos do Superior Tribunal de Justiça sobre a autonomia de condomínios para limitar as estadias, a plataforma se manifesta contrária por considerar que essas barreiras geram insegurança jurídica.
Para equilibrar essa defesa com as queixas de moradores, a empresa possui políticas institucionais rígidas que proíbem festas e eventos perturbadores globalmente, além de disponibilizar um canal direto de denúncias para vizinhos e síndicos, comprometendo-se a aplicar penalidades e banimentos aos usuários que descumprirem as normas de convivência.
