Na era da oferta de filmes sob demanda, uma experiência que parecia ameaçada pela lógica dos algoritmos ganha fôlego: a de compartilhar uma exibição numa sala de cinema e esperar até o fim para conversar sobre a produção. Além de iniciativas de fortalecimento do setor, como o edital lançado recentemente pela RioFilme de apoio aos cineclubes, cresce, por toda a cidade, o interesse por sessões presenciais, fora do circuito comercial, sempre com algum debate com diretores, críticos e pesquisadores.
O bate-papo amplia a leitura das obras, aproxima o espectador dos processos criativos e faz do cinema um ponto de partida para discutir arte, política, comportamento e memória. “O filme não acaba quando terminam os créditos. Para mim, ele começa depois que a luz acende”, resume a atriz e produtora Flora Camolese, 24 anos, à frente do recém-criado CineManouche, série de sessões gratuitas mensais no subsolo da Casa Camolese, no Jardim Botânico.
A curadoria dos cineclubes é, de modo geral, afetiva. “Gosto de assistir ao filme antes de incluí-lo na programação”, atesta Flora. A estreia do projeto no Manouche, no início do mês, foi com o drama Sem Coração (2024), da diretora Nara Normande, que participou do debate ao final.
Em 3 de setembro, será a vez de Malu (2024), com bate-papo com o diretor Pedro Freire. A proposta é apresentar obras diferentes a cada mês, reunindo clássicos, lançamentos e produções que mereciam alcançar um público maior. “A experiência cresce muito na conversa posterior. Os filmes moldam a forma como enxergamos a vida e cada pessoa é impactada de um jeito diferente”, reflete Flora.
Vizinha ao Manouche, a Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage também mantém programação mensal gratuita. “Escolhemos filmes que dialoguem com as artes plásticas. A ideia é valorizar os realizadores”, explica o cineasta e curador Luiz Carlos Lacerda.
Mesmo com o efeito de Ainda Estou Aqui e lançamentos de sucesso como O Agente Secreto, a venda de ingressos no ano passado para produções nacionais caiu 14,77%, o dobro da queda registrada para longas estrangeiros, com baixa de 7,14%. Os dados são da Agência Nacional do Cinema (Ancine).
+ Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui
Para tentar reter os cinéfilos, o Estação Claro Gávea inaugurou, em julho, um cineclube organizado em ciclos temáticos. “O público ganha um papel ativo nas salas, porque passa a fazer parte de uma produção intelectual coletiva”, aponta Alberto Mauad, responsável pela curadoria. Macunaíma, o anti-herói de Mário de Andrade (1893- 1945) que se tornou um clássico do Cinema Novo, dá nome ao cineclube estabelecido na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) em plena ditadura militar pelo jornalista Fichel Davit, hoje com 91 anos. O projeto foi interrompido em 1987, e voltou à mesma ABI, com duas sessões por mês. “A ideia é retomar o que fazíamos há cinquenta anos, quando era proibido falar de política”, ressalta Davit.
Outra iniciativa dedicada à difusão do cinema nacional e independente é o Cineclube Zezé Motta, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, com sessões na Biblioteca Parque Estadual, no Centro, sempre na última semana do mês. Um dos gargalos do mercado ainda é a distribuição. Entre janeiro e julho de 2026, 95,3% do público dos cinemas foi capturado pelas produções estrangeiras, segundo a Ancine.
Nesse contexto, os cineclubes surgem como alternativa para aproximar as obras nacionais da população. “Muita gente faz filmes, mas não encontra onde mostrá-los”, afirma o cineasta e produtor Carlos Vinicius Borges, o Cavi, que organiza o Cineclube Casas Casadas, no conjunto arquitetônico em estilo neoclássico tombado pelo Inepac em Laranjeiras.

Cavi também participa da organização de uma rede de cineclubes com sessões no Cais do Valongo, na Praça Quinze, no Estação Botafogo e em equipamentos culturais na Zona Norte. “O acesso à arte precisa ser descentralizado”, explicita. Afinal, cinema é uma experiência coletiva — e as pessoas querem, sim, estar na sala escura.
Luzes Acesas
CineMIS. Sessão mensal na sede da Praça Quinze do Museu da Imagem e do Som. A retirada de senhas acontece uma hora antes da sessão. Praça Luiz Souza Dantas, 1, Centro. @mis.rio.
Espaço Cavídeo de Cinema. Toda quarta, às 19h, com entrada gratuita. Avenida Vicente de Carvalho, 880, Vicente de Carvalho. @espacodecinemacavideo.
CineManouche. Sempre na primeira quinta do mês, às 19h. Rua Jardim Botânico, 983, subsolo da Casa Camolese. Grátis. @cine.manouche.
Cine Macunaíma. Duas vezes por mês no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Rua Araújo Porto Alegre, 71, Centro. @abi_nacional.
Cine Lage. Toda sexta, na Capelinha da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV). Grátis, com distribuição de senha trinta minutos antes do evento. Rua Jardim Botânico, 414. @parquelage.
Casas Casadas. Toda quinta, às 18h, nas Casas Casadas, com curadoria do cineasta e produtor Cavi Borges. Rua das Laranjeiras, 307. Grátis. @cinecasascasadas.
Estação Claro Gávea. Sessões semanais, às terças, às 19h30. A entrada é colaborativa, com valor sugerido de 30 reais por mês. Shopping da Gávea. @cineclubedoestacao.
Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/programe-se/sucesso-cineclubes/
