Há espetáculos que contam uma história. Outros nos convidam a revisitar a nossa própria. Irmãs Pereira pertence à segunda categoria. Com um texto de rara inteligência de Pedro Brício, a peça transforma o reencontro de três irmãs em uma delicada reflexão sobre memória, tempo, família e identidade.
Em um momento em que as comédias de qualidade se tornaram cada vez mais raras na cena brasileira, Irmãs Pereira lembra que fazer rir com inteligência continua sendo uma das tarefas mais difíceis e nobres do teatro. O humor nasce da observação aguda das relações humanas, dos pequenos quiproquós e das contradições que fazem parte de qualquer família.
Um dos maiores méritos da dramaturgia está na maneira como mistura passado e presente. As lembranças surgem entre interrupções, associações inesperadas e mudanças de tempo, exatamente como acontece na vida. A memória nunca é linear. Ela avança, recua, recria acontecimentos e atribui novos sentidos ao que foi vivido. Pedro Brício compreende essa lógica e a transforma em linguagem teatral, construindo uma arquitetura de lembranças tão natural que o espectador passa a caminhar por elas sem perceber.

A direção acompanha essa proposta com inteligência. As mudanças temporais fluem com naturalidade, permitindo que o público transite com as personagens por esse território em que realidade e memória convivem. Há um equilíbrio admirável entre humor e emoção, sem que um enfraqueça o outro.
O figurino também contribui decisivamente para a construção dessas mulheres. Outro achado da encenação é a sequência em que as irmãs dançam. Mais do que um momento de leveza, ela traduz a cumplicidade, os afetos e as memórias compartilhadas entre elas.

Também merece destaque a presença da casa. Ela deixa de ser apenas cenário para tornar-se um símbolo poderoso da existência, das raízes e da permanência. Enquanto tudo muda, a casa parece afirmar, silenciosamente: “eu continuo aqui”.
No centro de tudo está Guida Vianna. Celebrar seus 50 anos de carreira com este espetáculo é um gesto de rara felicidade. Ao longo de cinco décadas, a atriz construiu uma trajetória memorável no teatro brasileiro e, em Irmãs Pereira, oferece ao público mais uma interpretação marcada por inteligência, precisão e humanidade. Ao lado de Clarisse Derzié Luz e Raquel Rocha, forma um trio de absoluta sintonia. O resultado é um espetáculo delicado, sofisticado e profundamente verdadeiro, que nos faz rir, recordar e reconhecer, nas histórias daquelas irmãs, um pouco das nossas próprias famílias.


“As irmãs não param de desejar”, diz Pedro Brício, dramaturgo e codiretor da peça, que assina um dos textos mais sofisticados da temporada.
Nesta conversa, ele fala sobre memória, humor, envelhecimento, o teatro como experiência do presente e explica por que suas personagens, mesmo diante da finitude, insistem em celebrar a vida.
1 – Você escreve e dirige seus próprios textos. Em que momento o dramaturgo silencia para que o diretor possa enxergar a peça?
O dramaturgo quase nunca silencia. Nos ensaios, porém, não o convido para todos os momentos. Quando a equipe entra no processo, com cenógrafo, iluminador e figurinista, começo a pensar mais como diretor, na parte visual do espetáculo. Meus trabalhos partem muito da palavra. Muitas vezes escrevo sem saber como vou encenar. Mas a dramaturgia, a linguagem, os personagens, o enredo e a relação com o público já chegam aos ensaios muito bem desenhados. Neste espetáculo, como dividi a direção com Alcemar Vieira, começamos a pensar a encenação desde a primeira leitura.
2 – O teatro atravessa mudanças profundas de linguagem e de público. Na sua opinião, o que continua sendo uma experiência exclusivamente teatral?
O teatro radicaliza a presença e o tempo presente. Tem me interessado muito a dramaturgia da relação com o público, a maneira como o espetáculo convida o espectador a participar, olhar ou até criar a experiência junto com os artistas. Existe também o risco do acontecimento ao vivo e a beleza de saber que aquilo está acontecendo naquele instante e nunca mais se repetirá exatamente da mesma forma.
3 – Se você tivesse que definir a marca da sua dramaturgia hoje, qual seria a pergunta da maior parte dos seus textos?
Meus textos costumam reunir muitas perguntas que se cruzam. Uma delas aparece com frequência: estamos vivendo, lembrando ou inventando o tempo presente?
4 – Em “Irmãs”, qual foi a inquietação que deu origem à peça? O que você queria investigar por meio dessas três irmãs?
Talvez não pareça, mas o primeiro desejo foi investigar a relação entre o corpo e a morte. A sexualidade e a morte. A mistura entre o sensual e o espiritual que existe no corpo. Quando Guida Vianna me convidou para escrever um texto para ela, pensamos em falar sobre o que significa viver aos 70 anos. Surgiu também a questão do etarismo. Mas as irmãs Pereira não param de desejar. São excessivas, cheias de planos. Íamos falar sobre decadência, mas o que acabou surgindo foi justamente um excesso de vida, uma desmedida dos afetos. O enfrentamento da finitude acontece por meio do humor e da intensidade dos desejos.
5 – Embora trate de envelhecimento, memória e relações familiares, a peça preserva o humor. O riso, para você, alivia a dor ou a aprofunda?
Acho que o riso alivia a dor. Ao mesmo tempo, ele permite olhar para ela com certa distância, o que acaba aprofundando a nossa compreensão dessas questões.

